Fui-me embora para Pasárgada…



Matéria publicada na Revista Lida de Setembro de 2006

… e voltei rapidinho!

Há muito, muito tempo atrás estive em Pasárgada, terra de Manuel Bandeira, participando da reunião de uma instituição financeira que buscava criar novos produtos, neste caso um tipo de seguro para a atividade principal da classe (financeiramente) dominante da cidade.

Primeiramente houve uma descrição do produto, mas não houve dúvidas de ordem operacional sobre o funcionamento do seguro. Queriam saber quanto custava, acharam caro à primeira vista (antes de saber exatamente o que era o produto), e a questão que surgiu e permaneceu na sala foi quanto à dedutibilidade da despesa no imposto de renda.

O palestrante informou que, por ser um contrato financeiro, aquele valor não se enquadraria como despesa, e que o prêmio do seguro seria tributável na fonte, na mesma proporção dos fundos de investimento (equivalente a 20%). Neste momento a reunião perdera todo seu foco, houve um misto de desconfiança, conversas paralelas e desinteresse por parte do povo pasargadense. A conversa perdeu o sentido quando uma das pessoas que assistia a apresentação reclamou que o fisco deveria aceitar o gasto como despesa, e que o presidente não fazia nada no governo, dentre outras reclamações típicas.

A primeira impressão que tive ficou baseada na postura adotada pelas pessoas durante o evento, quando estas não chegaram nem a ouvir o que o especialista tinha para falar. Quanto aos convidados a impressão foi de que só poderiam estar esperando por um produto, a distribuição gratuita de dinheiro. Sorte que o palestrante era amigo do rei, e naquela noite dormiria numa cama escolhida a dedo.

Nesta viagem para Pasárgada, vi mais evidências, as pessoas de lá até reclamam sobre preços baixos de seus produtos, mas na verdade, sua preocupação principal não é exatamente otimizar seus lucros, mas sim pagar o mínimo de impostos. Essa preocupação primordial de aumentar as despesas dedutíveis causa até espanto, quando vejo alguém dizer: “Estou fazendo um planejamento tributário para pagar menos impostos”. Definitivamente não entendo, a idéia é pagar menos impostos ou obter um maior lucro na operação?

E outra questão, e essa trazida pelo ícone da independência norte americana, Benjamin Franklin, aquele do rosto presente em toda nota de 100 dólares, que citou: “Neste mundo nada pode ser dado como certo, à exceção da morte e dos impostos”. É impressão minha ou os pasargadenses estão tentando virar imortais?

No caso citado no começo do texto, a classe dominante da cidade tinha um patrimônio muito grande, mas seu nível de faturamento (e por conseqüência o de renda) era muito baixo. De que adianta buscar pagar o mínimo de impostos, se o faturamento impede quaisquer rentabilidade sobre o patrimônio que esteja em níveis aceitáveis. Não é exatamente um problema de margem de lucro baixa (receitas menos as despesas), mas sim a proporção de faturamento gerado que já não permite remunerar o capital, nem que a despesa fosse igual à zero.

Confirmei a hipótese de que os pasargadenses não estão realmente interessados em fazer dinheiro na atividade, ou pelo menos não demonstram isso em suas atitudes. O que mais fazem é, além de evitar impostos, procurar culpados no governo para justificar as dificuldades do setor, seja o presidente, a taxa de juros ou a desvalorização do câmbio.

Neste caso específico, que é a apresentação de um produto novo, de fácil aplicação, onde você pode garantir seus lucros antes mesmo de começar a operação através de um sistema robusto e confiável, ainda houve pessoas que não tiveram interesse. Ainda tenho dúvidas dos motivos de tamanha desconfiança, alguns dizem que os pasargadenses não gostam de nada novo, nada que seja diferente da maneira que já é feito.

Isto entra em consonância com a questão do planejamento estratégico, onde uma vez que são definidos os objetivos da empresa, pode-se traçar cenários, utilizando históricos de custo e produtividade, aliados também a preços futuros dos produtos agropecuários. É importante também escolher qual atividade será desenvolvida em cada área, sabendo de antemão o quanto será gasto, o quanto será ganho; e porque não o planejamento tributário, agora sim, buscando pagar menos tributos, mas ter como preocupação principal o resultado!

De qualquer maneira fico feliz que isso aconteceu há muito, muito tempo atrás, e que acontece apenas em Pasárgada.



Comente





Posts Relacionados

  • A Bolsa é arriscada?A Bolsa é arriscada? Esta matéria foi publicada na Revista Lida de Abril de 2006 Você não imagina o risco de ter soja armazenda... No artigo anterior, foi apresentada uma visão diferente, de como acontece a […]
  • Alinhamento estratégico da cadeia produtiva do repolhoAlinhamento estratégico da cadeia produtiva do repolho Este artigo foi publicadona Revista Lida de Agosto de 2006 Um estudo de caso dos Estados Unidos da América Em recente viagem pelos Estados Unidos, tive diversos insights (idéias […]
  • A rentabilidade na atividade rural – Parte IIA rentabilidade na atividade rural – Parte II Esta matéria foi publicada na Revista Lida em Junho de 2006 "Fazendeiro não é produtor rural, é dono de terra!" Este artigo é continuação do texto “A Rentabilidade na Atividade Rural”, […]
  • A pesquisa de clima e o planejamento estratégicoA pesquisa de clima e o planejamento estratégico Na hora de desenvolver a pesquisa de clima organizacional dentro da organização, um ponto muito importante é analisar a relação entre o clima organizacional e os resultados e objetivos que […]
  • A rentabilidade na atividade ruralA rentabilidade na atividade rural Matéria publicada na Revista Lida de Maio de 2006 Entenda as implicações do capital imobilizado em seus resultados financeiros Pesquisando alguns dados no Agrianual* 2006, mais […]
  • Planejamento de TecnologiaPlanejamento de Tecnologia Maximiano (2006) define tecnologia, de maneira geral, como a aplicação de conhecimentos para resolver problemas. Isto inclui desde atividades básicas, como o processo de transformação do […]