A rentabilidade na atividade rural – Parte II



Esta matéria foi publicada na Revista Lida em Junho de 2006

“Fazendeiro não é produtor rural, é dono de terra!”

Este artigo é continuação do texto “A Rentabilidade na Atividade Rural”, publicado na Lida Agro Revista, na edição de maio de 2006, onde foram apresentados dados sobre a rentabilidade, ou a taxa de retorno na atividade rural. Na análise houve uma série de cálculos, e ocorreu inclusive um erro de digitação, e transcrevo abaixo o segundo parágrafo da quinta coluna, ressaltando o erro:

A influência do risco pode ser observada quando analisamos a diferença na variabilidade dos preços de terras de pastagem formada – que subiram cerca de 99% entre 2002 e maio de 2004, e caíram 13,53% de maio de 2004 a agosto de 2005 – e a variação de terras agrícolas de alta produtividade, que, no mesmo período tiveram uma alta de 137% e posterior queda de 39,78%.

É claro que eu poderia ter feito apenas uma errata, mas meu propósito nesta continuação é relembrar este parágrafo, atribuindo a questão do risco à variação do preço. Se você observar, quando tivemos uma alta de preços nos produtos agrícolas e pecuários, a terra de lavoura subiu um terço a mais, e no momento onde os produtos tiveram uma baixa, caiu três vezes mais. Mas além do aspecto risco estar diretamente ligada à variabilidade dos preços dos commodities produzidos nestas terras, também quero citar a questão da valorização ou desvalorização da terra.

A crença é, assim como nos bons terrenos urbanos, de que os preços das terras sempre sobem. Os argumentos são vários, assim como em qualquer boletim de preço de soja, seja do MNP (Movimento Nacional dos Produtores), do CNA (Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária), ou qualquer outra das grandes agências com analistas de mercado. Onde quero chegar, e isto vem sendo apresentado nos últimos três artigos nesta revista, é que alguns paradigmas mudaram. Da mesma maneira que ouvimos falar das empresas de alta tecnologia, as multinacionais, ou aquele “papo” de era do conhecimento, essa realidade atinge também as empresas (sim, empresas!) rurais. Se estas não se adaptarem à nova conjuntura, no ano que vem teremos novo protesto em Brasília, clamando por rolagem de dívida e políticas monetárias ortodoxas, para apreciação do câmbio.

A proposta aqui é apresentar uma visão diferente, onde se parte do pressuposto de: Se a remuneração sobre o patrimônio de minha atividade, seja ela pecuária, lavoura ou arrendamento é próxima de 5% ao ano, em condições extremamente favoráveis, porque não fechar toda a operação, vender a terra, aplicar no banco, e receber 15,75% ao ano, sem risco? A argumentação entra não em discutir se você remunera 2, 3 ou 5% sobre o patrimônio, mas enxergar qual é seu negócio mais rentável.

A defesa para esta argumentação sempre foi a valorização da terra, que pode fazer toda a diferença no resultado final. Busquei alguns dados no Agrianual (com 20 anos de histórico 1985 a 2005) para justificar este argumento, e levantei algumas informações interessantes. Se analisarmos os preços de terras de lavoura nestes 20 anos, tivemos momentos de alta em baixa, mas ao final um resultado de variação positiva, de 3,18% ao ano (em dólar), e de 1994 a 2005 (11 anos) 12,06% ao ano, em reais. Se somarmos os 5% aos 12,06% ao ano, temos 17,06%, acima do nosso custo de oportunidade, os 15,75% que, lembrando, são obtidos sem risco. Portanto, mais retorno advém de maior risco, é importante melhorar a rentabilidade rural, pois a longo prazo esta taxa tende a diminuir, como podemos observar quando analisamos os 20 anos de histórico. Mas sem dúvida, quando ¾ da rentabilidade da empresa vem de uma só atividade, chamamos isto do negócio da empresa.

Algumas pessoas, quando vão fazer suas análises de valorização da terra (as que fazem, ao menos), utilizam como justificativa períodos como o de 1999 a 2004, quando houve uma alta de 600% nos preços das terras de lavoura, ou 47,58% ao ano. Com certeza períodos especulativos como estes geram bons resultados de valorização patrimonial, assim como o IBOVESPA teve uma alta de 97% em 2003, mas para a análise mais realista, devemos encarar o longo prazo.

Mais uma vez, estes números são pilares para sustentar a argumentação de que algumas máximas ainda citadas devem passar pelo crivo do senso crítico e análise fria, e não apenas tomadas como verdadeiras. O psicólogo Daniel Kahneman ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2002, pois provou que as pessoas não são nada racionais quando o assunto é dinheiro.

O cenário extremamente negativo do negócio rural no país ainda não tem hora para voltar a antigos patamares, mas qualquer atividade econômica deve ser analisada caso a caso, e números e dados não faltam para balizar as ações. E sem dúvida, a profissionalização da gestão rural é eminente, incluindo a compreensão de novas realidades, sendo algumas delas:

  • A dinâmica da formação de preço de commodities

  • A necessidade da utilização de mecanismos de travas de preço

  • A compreensão do Retorno sobre o Patrimônio (ROA)

Não serei tão duro e enfático como o jornalista José Roberto Caetano, em seu artigo “O ponto vulnerável da agricultura”, publicado na Revista EXAME, nº 866, de 26/4/2006, que usou palavras como fiasco ou falta de independência, referindo-se a gestão financeira da grande maioria dos produtores rurais no país, mas acredito na importância de deixar um comichão atrás da orelha, colocando a questão em perspectiva.



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